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Exclusivo: Lula no Democracy Now! (Em Português)

Web ExclusiveApril 11, 2018
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No dia 19 de março o Democracy Now! colocou no ar uma entrevista exclusiva com o ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva. Três semanas depois disso Lula foi preso, o que potencialmente acaba com seus planos de concorrer às eleições deste ano. No ano passado a presidenta afastada Dilma Roussef disse, “O primeiro capítulo do golpe foi o meu impeachment. Mas existe um segundo capítulo, que é não permitir que o Lula seja candidato nas eleições deste ano”. Nós conversamos com Lula sobre as controversas acusações de corrupção contra ele, sobre o recente assassinato da vereadora do Rio de Janeiro, Marielle Franco, sobre o 15° aniversário da invasão norte-americana ao Iraque e outros temas.

Click here to see the English-version of the interview and to read the transcript

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Transcript
This is a rush transcript. Copy may not be in its final form.

AMY GOODMAN: Os brasileiros continuam em luto pela perda da vereadora e ativista de direitos humanos da cidade do Rio de Janeiro Marielle Franco, de 38 anos de idade. Franco foi assassinada junto com seu motorista, na noite da quarta-feira passada, depois que dois homens armados perfuraram seu carro a balas quando ela retornava de um evento sobre empoderamento das mulheres negras. Franco, que era negra e lésbica, era conhecida por suas ferozes críticas aos assassinatos cometidos pela polícia nos bairros periféricos e favelas do Brasil. Na noite anterior à sua morte, Franco havia escrito no Twitter: “Quantos mais devem morrer para que essa guerra termine?”. Apenas no mês de janeiro, números do governo mostram que a polícia matou 154 pessoas no estado do Rio de Janeiro.

A morte de Franco vem em um momento crucial para o Brasil e o futuro da democracia no maior país da América do Sul. No mês passado, o presidente Michel Temer ordenou que as forças armadas do Brasil assumissem o controle da segurança pública no Rio. Há dois anos, a presidenta brasileira Dilma Rousseff, do Partido dos Trabalhadores, sofreu impeachment pelo Senado brasileiro, em um movimento que ela denunciou como um golpe. O Brasil está para realizar as eleições presidenciais ainda este ano. O favorito é o aliado de Dilma, o ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, mais conhecido como Lula. Enquanto ele lidera todas as pesquisas de opinião, ele enfrenta uma possível sentença de prisão, depois de ter sido condenado pelo que muitos acreditam serem acusações forjadas de corrupção e lavagem de dinheiro.

No ano passado, a presidente Rousseff disse: “O primeiro capítulo do golpe foi meu impeachment. Mas há um segundo capítulo, que é impedir o presidente Lula de se tornar um candidato para as eleições do próximo ano”. O advogado britânico de direitos humanos, Geoffrey Robertson, disse ao jornal The New Internationalist que, abre aspas, “medidas extraordinariamente agressivas” estão sendo tomadas para colocar Lula na prisão, “pelo Judiciário, pela mídia, pelas grandes concentrações de riqueza e poder no Brasil”.
Lula é um ex-líder sindical que serviu como presidente do Brasil de 2003 a 2010. Durante esse período, ele ajudou a tirar dezenas de milhões de brasileiros da pobreza. O presidente Barack Obama certa vez o chamou de o político mais popular da Terra.

Bom, sexta-feira passada tive a chance de falar com o Lula. Ele estava em São Paulo, Brasil. Comecei perguntando a ele sobre o assassinato da vereadora da cidade do Rio, Marielle Franco.

LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA: Amy, nós temos dois problemas no Brasil. O primeiro que é inaceitável o assassinato da Marielle. Uma jovem que a única coisa que ela fazia era incomodar os assassinos de negros da periferia do Rio de Janeiro. Em defesa dos direitos humanos, em defesa da vida das pessoas. E está claro que a morte dela foi uma morte e premeditada. Eu não sei se foi milícia ou se foi polícia. O dado concreto é que é inaceitável e acho que todos nós brasileiros deveremos numa só voz gritar bem alto para exigir imediatamente a punição dos responsáveis desta chacina. E o presidente Temer deve ter aprendido uma grande lição como esta chacina. Que o problema da violência na periferia do nosso Brasil não será resolvida com as Forças Armadas. É preciso que o Estado esteja presente dentro dos bairros periféricos do Brasil com emprego, com educação, com saúde, com cultura. Com emprego e com um salário para que as pessoas possam viver dignamente. As forças armadas não foram preparadas para cuidar de crimes comuns dentro das favelas do Brasil. Elas foram preparadas para defender nosso país contra inimigos externos. Ou seja, quando as pessoas entenderem que a violência no Brasil está ligada à péssima qualidade de vida que as pessoas estão sendo submetidas e a falta de condições de vida para as pessoas morarem na periferia, a gente vai diminuir a violência na periferia sobretudo contra crianças, jovens e negros do nosso país. E o caso da Marielle é um caso emblemático porque obriga todo os democratas do mundo, todos aqueles que amam a vida, aqueles que amam a liberdade, e todas aqueles que lutam em defesa dos direitos humanos a protestarem muito alto e muito forte para que o assassinos de Marielle sejam presos e punidos exemplarmente. É isto que todos nós queremos.

AMY GOODMAN: Cecília Olliveira do jornal The Intercept, twitou: “O lote de munição de 9mm usado na execução de #MarielleFranco e Anderson Pedro–UZZ-18–foi comprado pela Polícia Federal e é o mesmo encontrado na cena do massacre de Osasco, que matou 19 em São Paulo em 2015. 2 policiais e 1 guarda municipal foram condenados ”. Glenn Greenwald, do jornal The Intercept, twitou: “Para a surpresa de absolutamente ninguém, a evidência preliminar mostra ligações entre a polícia e os assassinos que mataram Marielle Franco. Nada é conclusivo ainda a este respeito, mas a evidência preliminar aponta diretamente nessa direção”.Você concorda com isso, presidente Lula? E o que o senhor acha que precisa ser feito imediatamente agora, enquanto milhares de pessoas tomam as ruas?

LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA: Olha a primeira coisa é que se for verdade a notícia de que a arma que matou a Marielle é uma arma comprada pela Polícia Federal, que já tinha sido utilizada para outra chacina aqui em São Paulo há dois anos atrás, nós já temos um indicio muito forte. É preciso saber se em algum momento neste período entre a chacina de São Paulo e a morte da Marielle a Polícia Federal anunciou ou fez denúncia de que tinha sido roubada arma da Polícia Federal, ou munição da Polícia Federal. Por que se não houve roubo e a munição utilizada e as armas eram armas que a Polícia Federal tinha comprado, é preciso que a Polícia Federal explique à sociedade brasileira porque é que essas armas estavam nas mãos dos assassinos. Nós temos um bom indício de provas para ir atrás da Polícia Federal e saber o que aconteceu. Ou se as armas foram roubadas e a Polícia Federal não fez a denúncia com vergonha porque roubaram as armas da Polícia Federal. Neste caso, Amy, é muito importante que a gente tenha apenas algum cuidado para não fazer acusações inverídicas, para não fazer acusações em busca de uma manchete de jornal. O que na verdade eu fico torcendo é para que a policia, para que as forças armadas, para que o governo, para que a inteligência da polícia possa, no menor tempo possível, mostrar ao Brasil quem foram os assassinos e punir esses assassinos.

AMY GOODMAN: Este é o Democracy Now, democracynow.org, o Noticiário de Guerra e Paz. Seguimos com nosso exclusivo, uma conversa com o ex-Presidente do Brasil Luiz Inácio Lula da Silva, popularmente conhecido como Lula. O ex-líder sindical altamente popular está concorrendo à presidência nas eleições deste ano, mas está enfrentando uma possível prisão no que muitos acreditam ser acusações forjadas de corrupção ligadas a uma ampla investigação conhecida como “Operação Lava Jato”. Lula foi condenado por aceitar um apartamento à beira-mar de uma empresa de engenharia que disputa contratos na estatal Petrobras, mas muitos apoiadores de Lula dizem que a condenação foi politicamente motivada.

O jornal The Intercept publicou recentemente, abre aspas: “A acusação contra Lula está repleta de problemas. O título do apartamento nunca foi transferido para Lula ou seus associados; ele e sua esposa nunca usaram a propriedade; a promotoria não conseguiu identificar uma compensação ou benefício explícito relacionado à Petrobras; nenhuma documentação oficial ou interna ligando Lula ao apartamento foi produzida; e o caso repousa quase inteiramente no testemunho do executivo que esperava ganhar um acordo de leniência por sua cooperação”, conclui.

Durante a entrevista na sexta-feira, o presidente Lula respondeu às acusações e condenações contra ele.

LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA: Eu não fui denunciado por corrupção. Eu fui denunciado por uma mentira do inquérito policial. Uma mentira da acusação do Ministério Público e uma mentira da sentença do juiz Moro. Porque só tem uma prova em todo esse processo, que é a prova da minha inocência. Que os meus advogados de defesa fizeram de forma magistral. Estamos aguardando que os acusadores mostrem pelo menos uma peça de acusação que diga que eu cometi algum crime no meu período de governo. Porque o que está por detrás disso é a tentativa de criminalização do meu partido. O que está por detrás disso é a vontade de uma parte da elite política do Brasil, junto com uma parte da impressa reforçada pelo papel do Poder Judiciário, de evitar que o Lula possa ser candidato às eleições em 2018. E eu continuo desafiando a polícia federal. Continuo desafiando o Ministério Público continuo desafiando o juiz Moro o tribunal da segunda instância a mostrar ao mundo e ao Brasil uma única prova de crime cometido por mim. Porque o comportamento do Poder Judiciário nesse instante é um comportamento político.

AMY GOODMAN: Senhor presidente, no ano passado, a presidenta deposta Dilma Rousseff disse: “O primeiro capítulo do golpe foi meu impeachment. Mas há um segundo capítulo, que é impedir o Presidente Lula de se tornar um candidato para as próximas eleições”. Você vê da mesma forma, que este é o último capítulo do golpe, que sua condenação sendo mantida, você será impedido de concorrer nas eleições de outubro?

LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA: O PT conseguiu fazer em 12 anos de governo no Brasil muitas coisas que não tinham sido feitas durante todo o século 20. Neste país, em 12 anos nós elevamos 40 milhões de pessoas a um padrão de vida de classe média. Nós tiramos 36 milhões de pessoas da miséria. Enquanto a Europa desempregava 62 milhões de postos de trabalho a partir de 2008, nós criamos 20 milhões de empregos formais neste país. Durante 12 anos todos os trabalhadores brasileiros tiveram aumento acima da inflação. Foi o maior momento de crescimento econômico da história do Brasil. Foi o maior crescimento da distribuição de renda na história do Brasil. Só para você ter uma ideia, em 12 anos nós bancarizamos 70 milhões de brasileiros que jamais tinham entrado num banco. Obviamente que ao depor a Dilma, eles não iam querer que o Lula voltasse. Porque eles sabem que a relação do Lula com a sociedade brasileira é a relação mais forte que um presidente do Brasil já teve em toda sua história. E mais importante, Amy, eles sabem que eu tenho a certeza absoluta de que a melhor forma de recuperar a economia brasileira é elevar a ascensão do povo pobre e trabalhador desse país. Eles sabem que eu sei como fazer isso. A hora que o povo pobre estiver trabalhando, a hora que ele estiver recebendo salário, a hora que ele estiver estudando, a hora que ele estiver comendo melhor, a hora que ele estiver morando melhor, a hora que ele tiver se vestindo melhor a economia volta a crescer e nós voltamos a ser o país mais otimista do mundo, e o povo mais alegre do mundo. Por isso Amy, eu quero ser candidato a Presidente da República do Brasil. Para provar que um torneiro mecânico que não tem diploma universitário sabe cuidar do povo brasileiro mais do que a elite brasileira que nunca cuidou do povo brasileiro.

AMY GOODMAN: Presidente Lula, porque decidiu concorrer à presidência outra vez?

LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA: Ora, na verdade eu não me decidi ainda. Quem está decidindo é o povo brasileiro. Veja, todas as pesquisas de opinião pública que são feitas no Brasil, todo mês, e são muitas, eu apareço em primeiro lugar em todas as pesquisas. Eu começo a ser o candidato que tem menos rejeição, e a possibilidade de eu ser candidato é eu ganhar as eleições no primeiro turno. É isso que está incomodando os meus adversários. Eu tenho certeza que na Suprema Corte ou no Supremo Tribunal de Justiça. eu vou conseguir ser inocentado e conseguir ser candidato à Presidência da República e ganhar as eleições e fazer o Brasil voltar a ser protagonista em política internacional. Fazer a economia crescer fazer gerar empregos e melhorar a vida do povo. É isto que eu sei fazer muito bem.

AMY GOODMAN: Se o caso não for favorável para você na Suprema Corte, você consideraria sair de cena?

LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA: Primeiro Amy, eu sou muito otimista, muito otimista. Se acontecer de eu não poder ser candidato, e o meu nome não tiver na urna… porque tem que estar o nome e a fotografia na cédula eletrônica aqui no Brasil. Portanto acho que se for o caso o partido deverá convocar uma convenção e irá discutir o que é que vai fazer. Eu vou brigar até o fim acreditando que se fará justiça neste país. Aliás eu defendo que o juiz que o Juiz Mouro, se for provada a minha inocência, ele deveria ser exonerado do cargo. Porque você não pode ter um juiz mentindo em uma sentença, condenado alguém, que ele sabe que é inocente. Ele sabe que o apartamento não é meu. Ele sabe que eu não comprei. Ele sabe que eu não paguei. Ele sabe que eu nunca foi lá. Ele sabe que não tem dinheiro da Petrobrás. Acontece que como ele se subordinou aos meios de comunicação… eu disse na primeira audiência com ele: 'você não tem condições de me absolver porque a mentira já foi longe demais'. E a desgraça de quem conta a primeira mentira é que passa a vida inteira mentindo para justificar a primeira mentira. E eles estão mentindo ao meu respeito. E eu vou provar que eles estão mentindo.

AMY GOODMAN: Bom, você levanta duas questões, presidente Lula: a mídia como promotora e o juiz como promotor. Você pode falar sobre ambos? Comece com a mídia.

LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA: Amy, é importante que se venha ao Brasil para conhecer o que acontece com a imprensa no Brasil. Eu fui presidente oito anos. A Dilma foi presidente quatro anos. E a imprensa durante 12 anos não fez outra coisa a não ser tentar destruir a imagem tanto minha quanto da Dilma, e a imagem do meu partido. Eu tenho mais matérias negativas contra mim no principal jornal da televisão no Brasil do que todos os presidentes da história do Brasil. Ou seja, é uma tentativa diária de me massacrar, de contar inverdades contra o Lula, contra a família do Lula. E eu, a única arma que tenho é enfrentá-los. E eles ficam irritados porque depois de me massacrar durante 4 anos, qualquer pesquisa de opinião pública feita por qualquer instituto de pesquisa, o Lula ganha as eleições no Brasil. Segundo o Ministério Público da Lava Jato. Eu respeito muito a instituição Ministério Público; eu fui deputado constituinte e ajudei a reforçar o papel do Ministério Público. Mas o Ministério Público criou um grupo, uma força tarefa, organizada por um promotor que foi para a televisão mostrar um powerpoint dizendo o que o PT foi criado para ser uma organização criminosa, e que pelo fato do Lula ser a pessoa mais importante no PT o Lula era chefe da organização criminosa. E ao terminar a acusação, ele diz simplesmente o seguinte: 'não me peçam provas. Não me peçam provas, eu tenho convicção'. Eu não quero ser julgado pela convicção de um promotor. Ele guarde para ele as suas convicções. Se ele está me acusando, eu quero que ele apresente no processo. E apresente ao povo brasileiro o crime que eu cometi. A única coisa que eu agora estou querendo de verdade é que o mérito do meu processo seja julgado. Eu quero que ele discuta o mérito. Leia a peça de acusação e a peça de defesa. E aí tome uma decisão. Na verdade o que eu quero nesse momento é que se faça justiça neste país.

AMY GOODMAN: O candidato à presidência do Brasil que aparece em segundo lugar nas pesquisas é o congressista de extrema-direita e ex-soldado Jair Bolsonaro. Ele tem sido chamado de “Trump brasileiro”. Você pode falar sobre quem ele é, o que ele representa …. e se você acha que existe alguma comunicação ocorrendo entre ele e o governo dos EUA?

LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA: Amy, eu não posso fazer acusações contra um adversário. A única coisa que desejo é ter o direito de concorrer às eleições aqui no Brasil, para ganhar as eleições e recuperar o direito do povo brasileiro viver bem. Eu não posso fazer julgamento do presidente americano, como não posso fazer julgamento do presidente do Uruguai, e muito menos fazer julgamento dos meus adversários.

AMY GOODMAN: Mas se você puder falar o que ele representa, e no que você se diferencia dele?

LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA: Ele é deputado federal. É um capitão do Exército Brasileiro. A informação que nós temos é que ele foi expulso do exército brasileiro. E ele é um homem que tem um comportamento de extrema direita, fascista. Ele tem muito preconceito contra as mulheres, contra as mulheres, contra os negros, contra os índios, ou seja, contra os direitos humanos. Ele acha que tudo se resolve com violência. Então eu penso que a ele não tem futuro na política brasileira. Ele tem o direito de disputar, ele fala. Ele faz um certo tipo para agradar uma parte da sociedade de extrema direita. Mas eu não acredito que o povo brasileiro tenha a coragem de eleger uma pessoa com o comportamento dele para ser presidente da república.

AMY GOODMAN: Você acha que ele ficou contente com a morte de Marielle?

LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA: Eu acho. Porque ele prega a violência todo dia. Ele acha que quem defende os direitos humanos está prestando um desserviço à democracia. Ele acha que quem defende as mulheres está prestando um desserviço à democracia. Ele acha que quem defende os negros está prestando um desserviço à democracia. Ele é contra tudo aquilo que eu sou favorável quando se discute a questão dos direitos humanos.

AMY GOODMAN: Sr. Presidente, quero te perguntar sobre o que aconteceu em Honduras, com a Organização dos Estados Americanos dizendo que a eleição do atual presidente Hernández foi profundamente falha, tendo a embaixadora dos EUA na ONU, Nikki Haley, indo para Honduras, claramente a embaixadora lá, como representante dos EUA profundamente envolvida no que aconteceu, com a tomada de posse do presidente antes de uma correção das eleições… O que você pensa sobre o que aconteceu em Honduras, o envolvimento dos EUA lá, e também a atitude dos EUA em relação… as ações dos EUA em relação à Venezuela, colocando certos líderes venezuelanos em uma lista daqueles proibidos de entrar nos Estados Unidos, e tomando outras medidas punitivas contra o Presidente Maduro?

LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA: Amy, é bastante visível a interferência norte-americana nos países da América Central. Não é de hoje que há interferência americana em muitos países da América Central. Tem embaixador ou embaixadora americana que se comporta como se fosse cabo eleitoral das pessoas da extrema direita da nossa querida América Central. Eu acho que… eu lamento profundamente que os Estados Unidos não tenham aprendido a conviver democraticamente com os países da América Central e com os países da América Latina. Eu, Amy, em janeiro de 2003, eu tinha menos de um mês na presidência da República, já tinha um conflito entre os Estados Unidos e a Venezuela. E eu estava no Equador participando da posse do presidente do Equador quando me reuni com o Chávez e propus a criação de um grupo de amigos da Venezuela para que a gente pudesse garantir a democracia na Venezuela. Eu indiquei os Estados Unidos para participar do grupo, Colin Powell participou do grupo, e coloquei a Espanha, e o Aznar participou do grupo. Porque? Porque a Espanha tinha sido o primeiro país a reconhecer o golpe. E os Estados Unidos eram acusados de ter [sic] o golpe. Eu coloquei o Brasil, coloquei a Argentina para participar do lado da América do Sul, e acho que mais a França… E nós encontramos um jeito de fazer com que a Venezuela tivesse um tempo de paz e tivesse eleição. Eu agora acho que tem que acontecer o mesmo. A autodeterminação dos povos é uma coisa sagrada. É direito dos Estados Unidos tomar a decisão que bem entender a respeito dos Estados Unidos. Isto chama-se soberania. E também é verdade que cabe à Venezuela tomar a decisão, sabe, em função da soberania da Venezuela. Eu penso que… eu tentei várias vezes fazer com o que o presidente Bush se reunisse com o presidente Chavez. Eu tentei várias vezes… na primeira reunião que o presidente Obama foi à Trinidad Tobago, logo no primeiro ano da posse dele, fizemos uma reunião com a participação do Chavez tentando criar condições para que os Estados Unidos tivesse uma relação mais tranquila com a Venezuela. Mais me parece que não é possível. Há uma certa irracionalidade no Departamento de Estado americano que não quer negociar a paz na Venezuela. Ora, é preciso compreender que a América do Sul crescendo vai melhorar a política econômica do mundo inteiro. A ninguém interessa que a democracia corra risco em qualquer lugar do mundo. Por isto eu lamento que não haja compreensão dos Estados Unidos com relação à Venezuela.

AMY GOODMAN: É de conhecimento geral que a CIA, o governo dos Estados Unidos, esteve envolvido com o golpe de 1964 no Brasil. Você vê alguma evidência disso, tanto no impeachment da Dilma quanto no seu caso? Você vê alguma evidência de algum envolvimento estrangeiro, particularmente dos Estados Unidos?

LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA: Olha, levou quase 40 anos para ficar provado que os Estados Unidos tinham participado do golpe de 64. Eu, embora não seja defensor da teoria da conspiração, estou convencido de que há gente nos Estados Unidos que não aceita o protagonismo do Brasil na política externa. Há interesses extraordinários na nossa Petrobrás. Há interesses, efetivamente, na influência do Brasil na América Latina e na América do Sul. Há interesses de que não dê certo o funcionamento dos BRICS e a criação do banco dos BRICS. Nós lemos na imprensa brasileira todo santo dia a relação do Ministério Público brasileiro e do Juiz Moro com o Ministério Público americano. A quantidade de processo contra a Petrobrás. E nós estamos tentando investigar. Deputados brasileiros vão ao Congresso Nacional americano conversar com o Congresso americano. E nós apenas queremos continuar trabalhando para que o Brasil seja um país soberano, seja um país que saiba utilizar o potencial de desenvolvimento que o Brasil tem em benefício do povo brasileiro. Eu fico me perguntando todo dia: a quem interessa tentar destruir a Petrobrás? A quem interessa destruir a indústria de engenharia brasileira? A quem interessa destruir a maior empresa de proteína do mundo aqui no Brasil? A quem interessa enfraquecer o Brasil? Nós temos em alguns países do mundo empresários que fizeram corrupção e o empresário está preso, e a empresa está funcionando. Aqui no Brasil eles quebram a empresa, quebram o empresário, quebram o emprego, e a economia brasileira vai afundando.

AMY GOODMAN: Senhor presidente, essa segunda-feira marca o 15º aniversário da invasão dos Estados Unidos ao Iraque. Você se posicionou contra essa invasão. O que você pensa sobre isso hoje, sendo que a presença norte-americana continua tanto no Iraque quanto no Afeganistão?

LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA: Amy, eu lamento profundamente porque no dia 10 de dezembro de 2002 eu conversei na Casa Branca com o presidente Bush. E eu dizia ao presidente Bush que o Iraque não tinha armas químicas porque o chefe da Agência Internacional era um brasileiro, era o embaixador Bustani. O presidente dos Estados Unidos e o primeiro ministro da Inglaterra contaram uma mentira ao mundo dizendo que existia armas químicas no Iraque. E o Saddam Hussein mentia ao mundo fingindo que tinha. Quando seria mais fácil o Saddam Hussein ter salvado seu pai da invasão americana pedindo que a agência internacional fosse fiscalizar. Então, duas mentiras. A do governo americano dizendo que tinha armas químicas, e a do Saddam Hussein fingindo que tinha. Destruíram um país. E não resolveu o problema do terrorismo no mundo. Acho que foi uma pena. Foi uma pena. E já fazem muitos anos e até agora ninguém conseguiu mostrar nada de armas químicas no Iraque. Me parece que a única arma química que tinha no Iraque era o próprio Saddam Hussein. Enforcaram ele, e o terrorismo continua.

AMY GOODMAN: Presidente Lula, qual sua avaliação sobre o presidente Donald Trump?
Lula: Eu acho muito esquisito o presidente da república do país mais poderoso do mundo governar o país via Twitter. Eu acho muito interessante isto, ou seja… Mas de qualquer forma eu tenho que respeitar porque ele foi eleito pelo povo americano e se foi eleito pelo povo americano ele exerce o mandato do jeito que ele quiser porque o povo americano deu autoridade para ele. Eu não posso ficar julgando o jeito de governar do presidente Trump. É o jeito dele. Quais suas impressões sobre o presidente Trump ter chamado a Africa, o Haiti e outros países – bom, ele chamou a Africa de um país – de 'buracos de merda'?

LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA: Eu acho que uma pessoa que se comporta dessa maneira com relação a um país irmão é uma pessoa que não está qualificada para exercer a presidência de um país tão importante quanto os Estados Unidos. É preciso tratar os países mais pobres que ainda não tiveram chance de progredir, de crescer economicamente com muito respeito. Amy, eu vou te dizer uma coisa. Se os países ricos, sobretudo os Estados Unidos, que já gastaram mais de 14 trilhões de dólares para resolver a crise financeira de 2008 com a quebra do Lehman Brothers tivessem utilizado parte desse dinheiro para ajudar os países da África a se desenvolverem, certamente a África estaria crescendo mais, gerando mais emprego, fortalecendo a democracia, e melhorando a vida do povo. Na primeira reunião que nós tivemos do G20 em Londres, nós sugerimos que os países ricos deveriam fazer investimento nos países pobres para que a gente criasse novas regiões industrializadas no mundo e novos consumidores no mundo. Lamentavelmente, os países ricos viraram protecionistas outra vez e demoraram muito para resolver o problema da crise de 2008.

AMY GOODMAN: Gostaria de ler para você um trecho no jornal MercoPress. Que diz: , “Uma polêmica visita e reunião de dois ramos do governo”–do governo brasileiro–“foi divulgada na mídia brasileira. Com efeito, no último sábado à tarde o presidente Michel Temer fez uma visita à chefe do Supremo Tribunal Federal, Carmen Lucia, em sua residência, e isso 'não foi conduzido como parte da agenda oficial do presidente'”. Acredito que eles foram vistos se abraçando.

“A visita aconteceu cinco dias depois que o juiz do Supremo Tribunal de Justiça, Luís Roberto Barroso, permitiu que a polícia investigasse os registros financeiros de Temer. É a primeira vez na história da república brasileira que um presidente em exercício tem seus registros financeiros abertos por ordem judicial”.

Sabe, isso estava acontecendo mais ou menos na mesma época em que surgiram relatos de que o conselheiro especial dos EUA, Robert Mueller, estava investigando as finanças da família Trump. Mas eu queria perguntar sobre isso, porque essa é a mesma Suprema Corte no Brasil que determinará seu destino. É isso mesmo, presidente Lula?

LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA: Olha, primeiro eu acho que o presidente Temer poderia se encontrar com a presidente Carmem Lúcia ou na sala dela na Suprema Corte, ou na sala dele no Palácio do Planalto. Não precisava fazer uma reunião secreta. Segundo, Amy, que aqui no Brasil nós precisamos restabelecer as funções das instituições. Aqui no Brasil a política está judicializada, e a justiça está politizada. E é preciso que as instituições voltem à normalidade. O Poder Judiciário através da Suprema Corte é o garante da Constituição. O Poder Executivo executa e o Poder Legislativo legisla. Se a gente voltar a ter uma relação harmônica e de respeito, a gente pode fazer com que o Brasil volte à normalidade. Tem acontecido coisas muito anormais no Brasil. Tem muito juiz e ministro falando pela televisão todo dia. Há um processo de desrespeito às instituições. Agora mesmo nós temos no Brasil uma parte do Poder Judiciário fazendo greve requerendo auxílio moradia de quase R$ 4.600,00. E essas pessoas ganham 30.000 mil reais por mês. Ou seja, portanto não precisa auxílio moradia. Quem precisa de auxílio moradia é o povo pobre brasileiro que não tem casa. Essa gente precisa de auxílio moradia. Então, eu tenho convicção, Amy, eu tenho a certeza de que é possível restabelecer a harmonia no Brasil. Eu tenho certeza que é possível a gente voltar a ter um clima, sabe, que tínhamos em 2010, 2009, com todo mundo vivendo harmoniosamente. Todo mundo, sabe, conversando. Todo mundo vivendo democraticamente na diversidade.

AMY GOODMAN: Presidente Lula, o senhor pode ser preso a qualquer momento. O que pretende fazer?

LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA: Eu não posso ser detido a qualquer momento. Esse negócio de eu ser detido a qualquer momento é um desejo dos meus adversários, dos meus inimigos. Eu só posso ser detido se alguém provar um crime cometido por mim. Eu tenho certeza Amy, que nesse momento que eu estou falando com você, eu estou mais tranquilo do que o de meus acusadores. Eu tenho a tranquilidade dos inocentes. Eu tenho a certeza que eu tenho a tranquilidade dos inocentes. E os meus acusadores sabem que estão me acusando com base numa mentira. Portanto eu não acredito que eles consigam colocar a cabeça no travesseiro e dormir com a tranquilidade que eu durmo todo dia.

AMY GOODMAN: Mesmo que você continue dizendo que é inocente, o juiz tem – o tribunal já determinou que você é culpado e condenado a quanto? Quase dez anos de prisão. Portanto, mesmo que você discorde com a condenação e o apelo ser negado, isso aconteceu. Você resistiria à prisão? Você resistiria a ser preso?

LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA: Não. Eu trabalho com a hipótese de que haverá justiça antes de tomar decisão. Estou convencido por quê… Amy, a única coisa que eu estou exigindo nesse momento é que eles julguem o mérito do meu processo. A Suprema Corte e o Superior Tribunal de Justiça não podem deixar prevalecer a inverdade contra a verdade.

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